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domingo, 17 de maio de 2020

Em vez do coronavírus, Bolsonaro elege governadores como inimigo número um


Enquanto o mundo luta para encontrar uma forma eficaz de fazer frente a covid-19, o Brasil está em meio a outra crise que se mostra tão perigosa quanto a própria pandemia. Mesmo com o novo coronavírus já tendo tirado a vida de mais de 15 mil brasileiros, o inimigo número um do governo federal neste momento parece não ser o micro-organismo, mas, sim, os governadores, massacrados por Jair Bolsonaro por seguirem o que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter a proliferação da infecção. Apesar da preocupação dos políticos, o presidente os acusa de tentar “quebrar a economia para atingir o governo” e, na última semana, disse que o país está em “guerra” não contra a doença, mas contra os administradores estaduais.

Por mais que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha decidido que compete a estados e municípios decidir as suas próprias políticas sociais e de saúde no enfrentamento à covid-19, Bolsonaro deu de ombros para a ordem e montou uma estratégia para colocar os governadores como infratores da lei. Pregando constantemente que a atividade produtiva do Brasil tem que voltar à normalidade, a cada semana o presidente amplia a lista de atividades consideradas essenciais, como aconteceu recentemente com a inclusão de academias, barbearias e salões de beleza no rol. Assim, pressiona para que os gestores estaduais cumpram o seu decreto, mesmo não sendo obrigados. Quem não o atende, comete “desobediência civil”.

Na disputa de egos, a única certeza é de que o Brasil sairá derrotado. “Temos dois entendimentos que estão em choque e não há sinal de que vão desaparecer. Pelo contrário, devem aumentar. O presidente da República não está muito preocupado com relativizar conflitos, o que é uma insensatez. Todos nós vamos perder. O futuro que nos aguarda é nebuloso”, alertou o doutor em ciências sociais e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Baía.Continua depois da publicidade



Ele reconheceu que a pandemia “traz grandes dificuldades e dramas para qualquer país” e que isso “não é uma questão exclusiva do Brasil”. No entanto, analisou que enquanto todos têm conseguido administrar divergências, isso não acontece por aqui. Com isso, não há unidade para se definir as melhores ações de combate aos efeitos da pandemia, tanto para agora quanto no período posterior. “Uma situação de emergência, que deveria ser tratada com emergência, não recebe os devidos cuidados. Enquanto isso, a população não sabe quem seguir. O reflexo são mais pessoas nas ruas. E é sabido que se não houver isolamento, o ritmo de contágio será maior, o que colocará o sistema de saúde em crise e incapaz de tratar doentes, não só da covid-19”, lembrou Baía.

A falta de consenso ficou evidente na quinta-feira passada, quando Bolsonaro pediu a empresários para jogares “pesado” contra os governadores, que têm adotado medidas de isolamento social mais rígidas para tentar conter a proliferação da covid-19 no Brasil. Segundo o presidente, “a questão é séria, é guerra, é o Brasil que está em jogo”. Como reflexo das divergências, até agora o governo não sancionou o projeto de socorro da União a estados e municípios, que vai ajudar os entes federativos com R$ 60 bilhões para ações de enfrentamento à pandemia. O texto foi aprovado pelo Congresso há mais de uma semana.

Principal desafeto de Bolsonaro, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), condenou o discurso de confronto do presidente e sugeriu a ele “sair da bolha de ódio” e começar a ser um líder “se for capaz”. “Retaliar governadores, que têm cumprido sua obrigação de atender à ciência e saúde para proteger vidas, é um gesto deplorável. Espero que ele cumpra, se for capaz, sua promessa de menos Brasília e mais Brasil. E cumpra também a promessa de obedecer ao pacto federativo. São Paulo está ao lado dos outros 26 estados brasileiros para defender os interesses da população e proteger a vida”, reagiu o governador.

(Correio Braziliense)

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