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domingo, 14 de março de 2021

Guimarães: Lula tem que ser o pacificador do País


Em entrevista para o jornal O Povo deste domingo (14), Guimarães explica por que somente Lula tem chances de unificar o país em torno do enfrentamento da crise sanitária e econômica que assola o país. Confira:

Um dos políticos mais próximos do ex-presidente, o deputado defende que, mais do que resgatar bandeiras do PT, o petista priorize a conciliação

Por Carlos Mazza

"Todo mundo critica o Bolsonaro. A diferença é que, quando o Lula fala, as pessoas param para ouvir". Vice-presidente nacional do PT e um dos políticos mais próximos de Luiz Inácio Lula da Silva, o deputado cearense José Guimarães (PT-CE) defende que o ex-presidente inicie, assim que estiver vacinado contra a Covid-19, uma "jornada" por todo o País de olho em 2022.

Para ele, a volta de Lula ao jogo eleitoral não é só chance real de vitória da esquerda nas próximas eleições, mas também "uma luz que no fim do túnel". Mais do que defender um projeto de retorno radical às origens petistas, Guimarães destaca que o momento é de Lula "pacificar" o País. "Há dois anos atrás eu não diria que seria esse o caminho", diz.

"A hora é de percorrer todo o País. Ouvir todos os segmentos, construir consenso", diz. No Ceará, Guimarães destaca que, mesmo com Lula no páreo, a prioridade segue manutenção da aliança com o PDT de Cid e Ciro Gomes (PDT). "Se o Camilo (Santana, governador petista) sair para o Senado, nós já estaremos contemplados na chapa".

O POVO: Lula é presença garantida nas urnas em 2022?

José Guimarães: Eu defendo que ele inicie um amplo diálogo com o País. Como ele disse, depois que ele tomar a vacina, e vai tomar dose na próxima semana, ele percorra o País e apresente soluções para essa fenomenal crise econômica e social que o Brasil vive. Ao fazer isso, devemos montar uma mesa nacional, e aí os partidos, PT, PDT, PSB, PCdoB, Psol, Rede e figuras do Centro para discutir esse programa de salvação nacional. Um programa que seja o oposto do que aí está. Que não tenha como centralidade as privatizações e a entrega do patrimônio nacional ao setor privado. Qual vai ser a abrangência desse arco de forças? Vai depender dos programas, mas, fazendo isso, ele vai ser forte para 2022, claro. Se as forças democráticas e progressistas entenderem que ele é o melhor nome para derrotar o Bolsonaro e interditar essa destruição que o Brasil está vivendo, ele vai se colocar. Mas, a priori, não há decisão. Mas os sinais da coletiva são muito fortes e o Lula ressurge, depois de cinco anos de silêncio, depois dessa perseguição brutal, como a liderança que quando fala, todo mundo escuta. O País ouviu o Lula. Todo mundo fala mal do Bolsonaro. O Rodrigo Maia fala, o Ciro fala, o FHC também, todo mundo fala, mas não tinha tido uma fala tão certeira, tão focada no enfrentamento contra o Bolsonaro. Por isso que foi impactante, não só pelo que o Lula representa, mas porque ele conhece o Brasil, tratou dos temas que têm que ser tratados. É uma alternativa sim, temos que calçar as sandálias da humildade e articular o País. Só os que não nutrem amor pela democracia que podem comparar Lula e Bolsonaro. São duas personalidades antagônicas do ponto de vista político, humano e dos governos. Você pode discordar, mas não pode comparar. Aí tem os que dizem que o PT agora voltar à polarização antiga? Ora, isso é o País, era só o que faltava, ninguém está perguntando o que é para fazer ou deixar de fazer. A força do Lula que impõe essa demanda. O Brasil está em uma encruzilhada da história, ele precisa se reencontrar, e o Congresso não tem infelizmente coragem para interditar esse governo genocida, que está fazendo algo inaceitável com os governadores, com o cearense. Se o Congresso não tem coragem de afastá-lo, as urnas precisam o afastar. O Bolsonaro faz muito mal ao País. Não me refiro só ao PT, já tivemos governos Sarney, Collor, Itamar, mais Lula, Dilma e até o Temer, mesmo que traduza o golpe, mas nunca tivemos algo parecido, desde o regime militar, com esse atual governo. Passou de todas as referências, é por isso que o Brasil corre risco.

O POVO: Buscar essa "pacificação" com o Centro e o mercado, por exemplo, não seria abrir mão de bandeiras que o partido defende?

João Guimarães: Acho que o Brasil vive uma situação esdrúxula, tão grave, não só com a pandemia, porque se juntou duas vertentes do desastre, que é o agravamento da crise econômica, produzida por esse ministro da Economia que não tem competência para gerir um País como o Brasil, e a crise da pandemia. Essas duas vertentes criaram esse horizonte de profundas incertezas onde todo mundo olha e dúvida se há luz no fim do túnel. Quando o Lula faz um discurso com essa abrangência, é uma luz no fim do túnel que se acendeu. Por isso que o Lula hoje tem que ser o pacificador do País. Não para renunciar do seu programa nem servir aos interesses do mercado, mas ele tem que ser um pacificador em função daquilo que talvez seja a pior marca desse momento, que é um país dividido no ódio, na falta de compromisso com as vidas humanas. É um período totalmente diferenciado. Há dois anos eu não diria que seria esse o caminho, mas as ameaças que existem hoje ao estado democrático de direito, as rebeliões que vem acontecendo nessa franja miliciana em torno do Bolsonaro, tudo isso exige uma reconstrução do País. E para reconstruir precisa de alguém que tenha visão de futuro e seja um pacificador. E essa pessoa é o Lula, para pacificar a democracia e nosso futuro.

O POVO: Qual o impacto da decisão de Fachin?

José Guimarães: O impacto do relançamento da vida política pública nacional do ex-presidente Lula é monumental. Esse impacto tem pelo menos quatro grandes dimensões. A primeira é porque ele falou para o País, ele falou daqueles temas que hoje afligem o País e que precisam de alguém que tenha conhecimento e dialogue com a população sobre isso. Esse discurso dele sobre o País, mesmo os que discordam, não concordam com as opiniões do Lula, reconhecem que foi a melhor fala, a mais contundente, a mais didática sobre os problemas do Brasil nos últimos meses. Acho que esse é um primeiro grande impacto. O segundo é que começa a se adquirir de volta uma esperança que estava perdida, por conta de tanta desesperança que o Bolsonaro trouxe ao País. Então as pessoas que viram no Jornal Nacional o Lula falar por 12 minutos, quando tomaram conhecimento da decisão do Fachin, foram percebendo isso. Claro que os processos vão continuar, mas o fato é que o Lula está fora da Lava Jato e seus direitos políticos foram readquiridos. O que acontecerá daqui para frente é outra história, e isso foi impactante para as pessoas, levou elas a perceber que há uma luz no fim do túnel, pelo tipo de repercussão, de impacto. A terceira é que ele falou para além do PT, os mais amplos setores do Centro ideológico e político dialogam com a fala dele. As forças de Centro, do âmbito político e do mercado, e na centro-esquerda. Ou seja, foi uma voz que se insurge contra o Bolsonaro de forma forte e consegue dialogar com esse espectro amplo, para além do que representa. É tanto verdade que ficou evidente que o Planalto ficou tonto, até máscara à noite o Bolsonaro estava usando, todo errado, porque perceberam a forma impactante como o Lula tratou da pandemia. O quarto impacto foi ele se colocar, não como candidato, mas como personagem central naquilo que queremos construir para 2022. Esse é o resultado, e acho que nessa dimensão quádrupla, nesse ambiente político que as pessoas já estão assimilando agora, vendo, analisando, há de se ter consequências.

O POVO: Qual o papel de Ciro Gomes nisso? E como isso impacta a eleição no Ceará?

José Guimarães: Vamos chamar ele para conversar, evidentemente. O Lula está disposto a conversar com todo mundo. Defendo que se constitua uma mesa nacional de diálogo, em torno de umas três ou quatro questões que possam servir de referência para a nossa unidade. A defesa da democracia e do estado democrático de direito, o freio do ímpeto golpista bolsonarista, impedir essa devastação que estão fazendo da desconstrução do estado de bem-estar social e retirada de direitos, e a defesa da nossa soberania nacional. Se a gente se sentar em uma mesa com esses quatro questões, podemos pensar em um palanque único. Se não for possível no 1º turno, pelo menos deixar pavimentado para o 2º turno. Todos devem colocar como objetivo central e principal derrotar o Bolsonaro. O objetivo central precisa ser esse. O Bolsonaro faz mal à democracia, faz mal ao País, a democracia brasileira não pode aceitar isso. Penso que uma mesa nacional, construída nesses moldes. Sobre Ceará não tratamos disso, mas, nas conversas que temos tido com o governador Camilo, firmamos que ele tem papel preponderante, se ele for candidato a senador ou qualquer coisa é o nosso candidato, então é a nossa presença na chapa. E, evidentemente, a manutenção da aliança com o PDT.

(O Povo)

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