Advogado
Membro Consultivo da Comissão Eleitoral da CFOAB
Membro Titular da Comissão Eleitoral da OAB/CE
Quando a urna divide a mesa de jantar, a democracia revela sua face mais humana.
As eleições de 2026 para o Governo do Ceará têm revelado um fenômeno que vai muito além das alianças partidárias: a divisão política dentro das próprias famílias. Se antes os sobrenomes representavam grupos coesos de poder, hoje eles também simbolizam divergências públicas, estratégias distintas e projetos políticos que seguem caminhos opostos.
Essa realidade desperta um sentimento de insegurança e incerteza quanto ao resultado da disputa. A fragmentação das lideranças tradicionais dificulta previsões, reduz o controle sobre bases eleitorais historicamente consolidadas e demonstra que a influência política familiar já não produz, necessariamente, unanimidade nas urnas.
Os exemplos se multiplicam. Em Santana do Cariri, o prefeito Samuel Werton apoia a reeleição de Elmano de Freitas, enquanto seu avô, Jesus Garcia, juntamente com diversas lideranças políticas de seu grupo, manifesta apoio à candidatura de Ciro Gomes. No Crato, o ex-prefeito Zé Ailton Brasil, candidato a deputado estadual, segue ao lado de Elmano, enquanto seu irmão, Roberto Brasil, seu filho Lucas Brasil e outros familiares optaram por apoiar Ciro Gomes. Em Russas, a divergência ganhou ainda maior repercussão: o deputado Nelinho apoia Elmano, ao passo que seu pai, o empresário e ex-prefeito Raimundinho, filiou-se ao PSDB e declarou apoio a Ciro Gomes.
Em Aurora, o cenário também ilustra essa pluralidade de posicionamentos. O ex-deputado e ex-prefeito Raimundo Macedo, ao lado de seu filho, o deputado estadual Davi de Raimundão, declarou apoio à reeleição de Elmano de Freitas. Em sentido diverso, o ex-vereador de Juazeiro do Norte, Preto Macedo, irmão de Raimundo Macedo, e seu sobrinho, o médico JPMacedo, que desponta como uma das principais promessas políticas do município de Aurora, manifestaram apoio à candidatura de Ciro Gomes. O episódio reforça que, mesmo entre famílias de forte tradição política, os projetos eleitorais podem seguir caminhos distintos, evidenciando que as disputas de 2026 transcendem os vínculos familiares e refletem diferentes estratégias e convicções políticas.
São apenas alguns exemplos de uma realidade presente em diversas regiões do Estado.
Sob outro olhar, essas divisões também revelam estratégias de conservação de poder político. Em alguns casos, diferentes integrantes de uma mesma família ocupam espaços em campos adversários, preservando interlocução com projetos distintos e ampliando sua capacidade de influência, independentemente do resultado eleitoral. Em outros, entretanto, prevalecem convicções pessoais, demonstrando que o vínculo familiar já não determina, obrigatoriamente, o posicionamento político.
A política deixou de ser uma herança automática para se tornar uma escolha individual. O eleitor observa essas divergências, interpreta seus significados e decide. Afinal, quando nem a própria família vota unida, fica evidente que o resultado das eleições pertence, cada vez mais, à liberdade de consciência de cada cidadão.
