terça-feira, 28 de julho de 2026

Artigo - Curso Intensivo de Povão: Matrículas Abertas até Outubro


Por Leopoldo Martins

Advogado 

Membro Consultivo da Comissão Eleitoral do Conselho Federal da OAB

Membro Efetivo da Comissão Eleitoral da OAB/CE

Mal o calendário eleitoral desperta e acontece um fenômeno digno de estudo científico: surgem candidatos que, da noite para o dia, tornam-se doutores em todas as tradições populares. É uma metamorfose impressionante. Quem nunca tinha visto uma corrida de jumento agora analisa a linhagem do animal. Quem confundia bila com bolinha de gude passa a comentar técnicas com a segurança de um campeão mundial. E até o futebol de botão ganha novos “craques”, capazes de explicar táticas que descobriram cinco minutos antes da gravação do vídeo.

A agenda é intensa. Pela manhã, prestigiam torneios populares; à tarde, viram especialistas em manifestações culturais; à noite, posam como guardiões dos costumes locais. Tudo devidamente filmado, editado e publicado, sempre com um sorriso ensaiado e uma legenda dizendo que “sempre fizeram parte daquilo”.

O curioso é que muitos jamais apareceram nesses eventos antes da proximidade das urnas. Descobrem o valor da cultura exatamente quando descobrem também o caminho até as câmeras. O povo, porém, costuma ter memória melhor do que imaginam e sabe distinguir quem prestigia por convicção de quem comparece apenas por conveniência.

O problema, evidentemente, não está nas corridas de jumento, nos campeonatos de bila, no futebol de botão ou em qualquer manifestação cultural. Todas merecem respeito, incentivo e apoio permanente. O verdadeiro incômodo surge quando o espetáculo substitui o debate e a fantasia ocupa o lugar das propostas.

Enquanto alguns treinam poses para parecer “do povão”, a população continua esperando soluções para problemas reais: saúde, educação, infraestrutura, segurança e geração de oportunidades. Afinal, eleição não deveria premiar o melhor ator do folclore eleitoral, mas quem apresenta projetos capazes de transformar a vida das pessoas. Do contrário, a encenação termina nas urnas, mas a conta da demagogia permanece por quatro anos.

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